Não é mais sobre adicionar AI ao produto. É sobre reescrever o modo como a empresa pensa, decide e entrega valor — e poucas estão dispostas a fazer isso de verdade.

Estamos vivendo algo raro: uma mudança de ciclo tecnológico que, simultaneamente, é uma mudança de modelo de negócio. Raras vezes as duas coisas acontecem juntas. E é exatamente essa sobreposição que torna o momento tão desconcertante para líderes, tão fértil para quem enxerga com clareza.

Uma das palestras que assisti durante o Brazil at Silicon Valley foi a do Pedro Franceschi — CEO da Brex. Ele descreveu a jornada de transformação por AI em três fases distintas — não como teoria, mas como o que ele viveu operando uma das fintechs mais avançadas em adoção de AI.

Fase um

Consultas e trabalho conjunto

Times usam AI como assistente — para pesquisa, para rascunhar documentos, para acelerar tarefas individuais. Ganho real, mas ainda periférico à operação. Fase dois Automação de fluxos e features de AI Processos internos são automatizados. AI aparece no produto como funcionalidade. A empresa ganha eficiência, mas a estrutura organizacional permanece a mesma. Fase três – onde poucos chegaram Mudar o DNA da empresa AI não é uma ferramenta nem um projeto. É o modo como a empresa opera, decide e cria valor. Isso exige reconfiguração de processos, de papéis e da própria lógica de como o negócio funciona

Fase dois

Automação de fluxos e features de AI

Processos internos são automatizados. AI aparece no produto como funcionalidade. A empresa ganha eficiência, mas a estrutura organizacional permanece a mesma.

Fase três – Onde poucos chegaram

Mudar o DNA da empresa

AI não é uma ferramenta nem um projeto. É o modo como a empresa opera, decide e cria valor. Isso exige reconfiguração de processos, de papéis e da própria lógica de como o negócio funciona.

A maioria das empresas está travada entre a fase dois e a três. E não é por falta de interesse. É porque a transição para a fase três exige algo que vai além de contratar engenheiros de AI ou assinar contratos com fornecedores de LLM. Ela exige a disposição de questionar como decisões são tomadas, como times são formados, como valor é medido.

“Não é feature, não é projeto. É uma reconfiguração de como a empresa opera, decide e entrega valor.”

O que torna isso universalmente relevante é que a transformação não respeita vertical. Não é uma conversa só para fintechs ou para startups de tecnologia. Uma healthtech que usa AI para triagem de pacientes, um varejista que usa AI para gestão de demanda, uma empresa de logística que reconfigura suas rotas com modelos de otimização — todos estão, em graus diferentes, navegando as mesmas três fases.

A pergunta que cada liderança precisa fazer com honestidade não é “usamos AI?”. É: em qual fase estamos? E o que precisaríamos mudar — de verdade — para dar o próximo passo?

O novo ciclo tecnológico não vai esperar. E as empresas que chegarem à fase três primeiro não vão apenas operar com mais eficiência. Elas vão enxergar oportunidades que as demais simplesmente não conseguem ver — porque a estrutura cognitiva da organização estará em outro nível.

Esse é o jogo. E ele já começou.

Vanessa Poskus

Especialista em inovação e gestão de benefícios, é CEO e cofundadora da Uppo e da 4x4 Ventures. Mentora de startups no Cubo Itaú, atua como conselheira da Abstartups e é professora de MBA na FIAP, liderando a transformação do futuro do trabalho no ecossistema de tecnologia.